quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A Fita Branca!


Uma história das crianças

‘A fita branca’ foi considerado pelos críticos de cinema uma fábula sobre as origens do nazismo. Mas interpretar o filme apenas como preâmbulo do Holocausto é reduzir seu contexto

Bruno Garcia
  • A fita branca (Dass Weisse Band)
    Dir.: Michael Haneke, Austria, França, Alemanha e Itália; 2009.

    Quando as cinzas da guerra baixaram e as primeiras notícias sobre campos de concentração chegaram ao grande público, ficou claro que nada no mundo seria como antes. Era óbvio demais que tínhamos chegado a um estado de monstruosidade insuperável. Desde então, nazismo, Hitler e o holocausto entraram para o vocabulário como metáfora última do mal. Em que pese sua magnitude e significado, entretanto, há certo exagero nas interpretações contemporâneas que procuram nazismo em tudo. Mais do que isso, a obsessão pelo tema e seu imaginário chegou ao ponto de impedir que qualquer outro contexto, discurso ou obra seja considerado.
    Foi exatamente o que aconteceu com “A Fita Branca” (2009), longa do diretor austríaco Michael Haneke. O filme se passa numa pequena aldeia do norte da Alemanha em 1913, poucos meses antes da Primeira Guerra Mundial. Pacata e condenada a uma enfadonha rotina, a comunidade é confrontada com uma série de estranhos eventos. A caminho de casa, o médico local e seu cavalo são derrubados por um pequeno fio de arame, ferindo-o gravemente. A mulher do fazendeiro morre quando o piso de madeira de uma serralheria cede. Aos poucos, o clima de insegurança e desconfiança revela o rancor contido nas relações entre os habitantes dessa aldeia.   
    Alemanha, mais maldade, mais véspera de uma guerra, igual a nazismo. Certo? Não necessariamente. A tentação é grande, mas transformar um filme em documento-tese pode produzir conclusões, no mínimo, equivocadas. Em recente entrevista à RHBN, Walnice Nogueira Galvão avisara que “tomar um discurso desses como documento para usos de outras disciplinas só pode resultar em distorções”. Falávamos sobre os abusos feitos por historiadores e outros doutores das ciências sociais ao utilizar uma ficção como mera metáfora de uma época. Como um documento unidimensional, moldado para conveniência metodológica dos que estudam o tempo, ou o tema que abordam.
    Crítica literária experiente, Walnice sabe bem os riscos da “hiperinterpretação”, da mágica de consagrar autores, histórias e personagens em paradigmas da consciência involuntária do seu tempo. Infelizmente, essas deformações não se restringem à literatura.
    Estado de São Paulo, reproduzindo texto do Cineweb,  não teve qualquer pudor ao afirmar que “A Fita Branca revê raízes do nazismo”. Apesar de elogiado, o filme é tratado exclusivamente pelo que supostamente prenuncia: “Não é difícil enxergar aqui uma fábula sobre as raízes do nazismo (...) seguindo os mesmos monstruosos princípios da justiça com as próprias mãos contra os alvos tidos como culpados por algum tipo de ruptura da ordem social tida como ideal” – bem como a busca da eliminação dos mais fracos e dos deficientes.” Não é difícil mesmo. Mas também não é correto.
    Para o resenhista do Café História, Haneke tem “uma tese” (e não um filme) sobre a estrutura patriarcal autoritária alemã. Segundo o autor, foi essa sociedade que “produziu sentimentos de indiferença, crueldade e desprezo na geração que mais tarde abraçaria a causa do nazismo”. Na resenha, ele fala sobre o conceito de massa, faz uma analogia entre o espancamento de uma criança e a violência da SS (polícia nazista), compara a fita branca usada pelas crianças com a estrela de Davi dos judeus na Alemanha, além de discutir uma vasta bibliografia sobre a natureza e significado do nazismo.  Mas o filme ficou relegado ao papel de preâmbulo do Holocausto.

    Fixação com o peso do nazismo
    Este filme não é a única vítima deste tipo de abordagem da arte. A fixação com o peso do nazismo acompanha muitas das interpretações exageradas sobre o escritor tcheco Franz Kafka. Aqui no Brasil, Modesto Carone, seu principal tradutor, não hesita em proclamá-lo como o homem que previu o nazismo. É bem conhecido o discurso do indivíduo aprisionado por um sistema monstruoso. O problema sempre é supor, que por ter captado a atmosfera repressiva do seu tempo, o escritor antevia o que viria acontecer quase 20 anos depois de morto – e este é um erro recorrente na historiografia, atribuir um significado aos eventos quando já se sabe o que aconteceu depois. Nas palavras de Carone, Kafka “prefigura as piores coisas que aconteceriam no século XX”. Como se de todas as possibilidades e contingências do começo do século XX, o nazismo fosse a única determinante. Como se já estivéssemos condenados pelo destino. Trata-se, evidentemente, de uma concepção de tempo que herdamos do cristianismo.
    Ao contrário dessas interpretações, Haneke não parece interessado em propalardiagnósticos sobre o fascismo alemão. Em uma entrevista de 2009, deixou claro que não gostaria que o filme fosse visto como uma parábola do nazismo. Mais importante, ele destaca o grupo de crianças, doutrinadas doentiamente por uma sociedade que está em colapso. Foram justamente esses dois pontos, a decadência de uma sociedade e o papel das crianças com vítima e sintoma, que grande parte da crítica ignorou.  Assim como o subtítulo (Eine deutsch kindergeschichte / Uma história da criança alemã), esquecido nas traduções em inglês e português.

    Foto de uma escola alemã no início do século XX
    Foto de uma escola alemã no início do século XX
    Crepúsculo da sociedade germânica patriarcal
    O filme, destacando características do começo do século XX, revela o crepúsculo da sociedade germânica patriarcal, conservadora, moralista, cuja coesão era mantida por uma hierarquia imutável. Nele é possível enxergar a multiplicidade dessa crise, a profundidade com que o sistema de crenças e relações parece dar sinais de esgotamento.
    Essa sociedade estratificada é reforçada pelo anonimato dos personagens, conhecidos quase exclusivamente pela função, ou título. Aqui sim podemos tentar mapear os personagens como alegorias da rígida hierarquia desse mundo. O Barão, violento e autoritário, como alegoria de uma aristocracia rural, muito pouco coerente; o pastor, a serviço da austeridade protestante e moralista, já não proclama o evangelho amoroso, mas procura inibir e regular toda faísca de espontaneidade. Todos engajados no incessante exercício de controle sobre almas e corpos. Mas suas autoridades morais não encontram mais saída ou perspectiva.
    A natureza das relações apresentadas no filme parece ir muito além do prenúncio da Alemanha nazista.  O filme apresenta a rotina de uma aldeia, no seu metódico dia a dia. E nos acostumamos com essa rotina, à espera de uma tragédia anunciada pela atmosfera opressiva do filme. Feito em preto e branco e sem qualquer trilha sonora, o clima de tensão cresce com a série de crimes misteriosos, atestando a presença de uma maldade endógena que, uma vez reconhecida por todos, permanece no indizível, apartada do contato direto com a palavra.
    A aldeia é minúscula, todos parecem se conhecer, e mesmo assim, nenhum dos crimes é desvendado. Aos poucos percebemos que, apesar de não encontrarmos os culpados, culpamos – como espectadores – a maldade subjacente a toda aldeia. A violência é oculta, invisível. Afinal, o silêncio precisa ser preservado. O terrível, o impensável, deve ser silenciado. No filme, ele é deixado à imaginação do espectador, como uma narrativa do inconsciente, outra criação do período.
    É compreensível que o ressentimento visível em relações autoritárias, e a maldade reativa que os personagens– especialmente as crianças – demonstram sejam facilmente diagnosticadas como um mal coletivo, que sejam vistas como prenúncio das tragédias do século XX. Mas o nazismo era só uma entre as possibilidades, e interpretar esse ambiente de crise reduzido de sua contingência histórica é reduzir aquele contexto.

    O fim do XIX na Alemanha
    A modernidade nos países de língua alemã teve suas peculiaridades. O século XIX assiste a transição de uma sociedade barroca - com traços de Antigo Regime, profundamente religiosa- para uma racionalista secular. O liberalismo ventilado nas sociedades germânicas, diferente dos seus vizinhos latinos e saxões, encontrou uma mediação curiosa entre razão e moralidade, dentro de um estado fortemente centralizado, um misto de absolutismo iluminista e um cristianismo reformado.  Nas palavras de Carl Schorske, uma sociedade moralmente repressora, que “defendia o domínio da mente sobre o corpo, (...) e o progresso social através da ciência, educação e trabalho duro”. 
    Não surpreende que sejam as crianças a variável privilegiada para demonstrar o que aquele mundo estava produzindo. Quando suas estruturas entraram em colapso, o sistema educacional, comprometido com a reprodução sistemática de uma lógica maior, deu os primeiros sinais do fracasso. No filme, encontramos as crianças sempre contidas, obedientes, mas também reprodutoras do ódio congênito de sua formação, afinal, sua inocência esta também em serem más.  
    Nem toda violência é nazismo, nem todo ódio e rancor concentrados em uma comunidade é uma analogia oportuna para o terceiro reich. Mais do que isso, nenhum filme é uma tese sociológica (pelo menos não apenas). A única constante é o fascínio que as tragédias exercem sobre nós. Talvez por isso seja tão fácil encontrar, em qualquer livraria, “trabalhos” sobre Hitler e seu cachorro, secretaria, cueca, bigode...


     Retirado do site da Revista de História da Biblioteca Nacional

Nenhum comentário:

Postar um comentário